quarta-feira, 10 de julho de 2013

INTERPRETAÇÃO - LETRAS DA MPB



O Bêbado e a Equilibrista



Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco louco!
O bêbado com chapéu coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil que sonha
Com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa pátria-mãe gentil
Choram Marias e Clarices
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda-bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar ... a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista tem que continuar


O bêbado e a equilibrista, o hino da anistia.

Francisco Roberto Machado
  Juiz Federal no Ceará

É do jornalista e compositor Aldir Blanc a letra da música que se tornou o hino da anistia, porque, mais do que nenhuma outra, põe o dedo na maior ferida de nossa história recente: a dor daqueles que perderam entes queridos, torturados até a morte por agentes do governo militar, sem falar no exílio imposto a tantos outros, obrigados a viver longe de sua terra natal.
A música inicia com o compositor postando-se como um observador de uma determinada tarde-noite no Brasil (“caía a tarde feito um viaduto”). Do contexto, percebe-se que estamos em meados da década de 1970, porque ele começa comparando o tempo físico com o momento político vivido no país: estava anoitecendo no Brasil (no duplo sentido) e era um tempo cinzento, manchado, triste, sem brilho, sombrio, um tempo de sufoco (“a lua, tal qual a dona do bordel/ pedia a cada estrela fria/ um brilho de aluguel/ e nuvens, lá no mata-borrão do céu/ chupavam manchas torturadas/ que sufoco”). Sabe-se que esse tempo sombrio, cinzento, manchado, sem luz, tempo de sufoco, começou a partir de 1968, com o famigerado AI-5, imposto pela ditadura militar, em que foram reduzidas as liberdades individuais e o governo endureceu o regime, perseguindo aqueles tidos por comunistas, impondo-lhes prisões, tortura e exílio.

Retornando ao texto, o compositor contempla uma tarde-noite do Brasil e observa um bêbado que lembrava Carlitos (personagem mais famoso de Charles Chaplin) por suas irreverências e o chapéu côco. A princípio, pode-se pensar que o bêbado era um alienado em relação aos problemas vividos pelo país, pois fazia irreverências. Mas como o bêbado trajava preto, como se estivesse de luto, certamente protestava. Um protesto disfarçado, pois temia a “dura”, em sua negra viatura, e ele certamente não queria passar vexame.

O compositor, portanto, contempla a noite e faz a comparação de que falávamos acima, entre a noite física e o período sombrio em que o Brasil vivia naquele tempo. Em seguida, o poeta fala de um sonho dos brasileiros, a anistia, abordando a esperança de que voltem para o Brasil aqueles que fugiram para o exílio às pressas - num rabo-de-foguete - dentre os quais o sociólogo Betinho, irmão do cartunista Henfil, tido como comunista (na verdade um homem preocupado com questões sociais, hoje conhecido como o maior ideólogo do “FOME ZERO”, do Presidente Lula).

O ponto alto da composição reside na crítica à tortura e morte de várias pessoas durante o regime militar (“chora a nossa pátria-mãe-gentil/ choram Marias e Clarices/ no solo do Brasil”). As “Marias” são as viúvas, mães e filhas da grande maioria dos torturados e/ou mortos. Clarice é a viúva do jornalista Wlademir Herzog, morto na prisão. Até hoje o governo alega que ele se enforcou, mas seus familiares e amigos garantem que ele jamais se mataria.

No desfecho, o compositor fala de uma esperança equilibrista (“a esperança dança/ na corda-bamba de sombrinha/ e em cada passo dessa linha/ pode se machucar”). Quer dizer: até a esperança, que é a última que morre, está na corda-bamba. Mas a esperança, mesmo sabendo que pode se machucar, sabe que ainda há um fio de esperança, pois a vida continua. Isto é o que está dito no final da composição: “azar/ a esperança equilibrista/ sabe que o show de todo artista/ tem que continuar”.

Publicado na REVISTA AJUFE DE CULTURA, ano I , nº 01 – Fev/2006

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