O Bêbado e a Equilibrista
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Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto Me lembrou Carlitos A lua tal qual a dona do bordel Pedia a cada estrela fria Um brilho de aluguel E nuvens lá no mata-borrão do céu Chupavam manchas torturadas Que sufoco louco! O bêbado com chapéu coco Fazia irreverências mil Pra noite do Brasil Meu Brasil que sonha Com a volta do irmão do Henfil Com tanta gente que partiu Num rabo de foguete Chora a nossa pátria-mãe gentil Choram Marias e Clarices No solo do Brasil Mas sei que uma dor assim pungente Não há de ser inutilmente A esperança Dança na corda-bamba de sombrinha E em cada passo dessa linha pode se machucar Azar ... a esperança equilibrista Sabe que o show de todo artista tem que continuar |
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O bêbado e a equilibrista, o hino da
anistia.
Francisco Roberto Machado
Juiz Federal no Ceará
É do jornalista e compositor Aldir Blanc a letra da
música que se tornou o hino da anistia, porque, mais do que nenhuma outra, põe
o dedo na maior ferida de nossa história recente: a dor daqueles que perderam
entes queridos, torturados até a morte por agentes do governo militar, sem
falar no exílio imposto a tantos outros, obrigados a viver longe de sua terra
natal.
A música inicia com o compositor postando-se como um
observador de uma determinada tarde-noite no Brasil (“caía a tarde feito um
viaduto”). Do contexto, percebe-se que estamos em meados da década de 1970,
porque ele começa comparando o tempo físico com o momento político vivido no país:
estava anoitecendo no Brasil (no duplo sentido) e era um tempo cinzento, manchado,
triste, sem brilho, sombrio, um tempo de sufoco (“a lua, tal qual a dona do
bordel/ pedia a cada estrela fria/ um brilho de aluguel/ e nuvens, lá no
mata-borrão do céu/ chupavam manchas torturadas/ que sufoco”). Sabe-se que esse
tempo sombrio, cinzento, manchado, sem luz, tempo de sufoco, começou a partir
de 1968, com o famigerado AI-5, imposto pela ditadura militar, em que foram
reduzidas as liberdades individuais e o governo endureceu o regime, perseguindo
aqueles tidos por comunistas, impondo-lhes prisões, tortura e exílio.
Retornando ao texto, o compositor contempla uma
tarde-noite do Brasil e observa um bêbado que lembrava Carlitos (personagem
mais famoso de Charles Chaplin) por suas irreverências e o chapéu côco. A
princípio, pode-se pensar que o bêbado era um alienado em relação aos problemas
vividos pelo país, pois fazia irreverências. Mas como o bêbado trajava preto,
como se estivesse de luto, certamente protestava. Um protesto disfarçado, pois
temia a “dura”, em sua negra viatura, e ele certamente não queria passar vexame.
O compositor, portanto, contempla a noite e faz a
comparação de que falávamos acima, entre a noite física e o período sombrio em
que o Brasil vivia naquele tempo. Em seguida, o poeta fala de um sonho dos
brasileiros, a anistia, abordando a esperança de que voltem para o Brasil
aqueles que fugiram para o exílio às pressas - num rabo-de-foguete - dentre os
quais o sociólogo Betinho, irmão do cartunista Henfil, tido como comunista (na
verdade um homem preocupado com questões sociais, hoje conhecido como o maior
ideólogo do “FOME ZERO”, do Presidente Lula).
O ponto alto da composição reside na crítica à tortura
e morte de várias pessoas durante o regime militar (“chora a nossa
pátria-mãe-gentil/ choram Marias e Clarices/ no solo do Brasil”). As “Marias” são
as viúvas, mães e filhas da grande maioria dos torturados e/ou mortos. Clarice
é a viúva do jornalista Wlademir Herzog, morto na prisão. Até hoje o governo
alega que ele se enforcou, mas seus familiares e amigos garantem que ele jamais
se mataria.
No desfecho, o compositor fala de uma esperança
equilibrista (“a esperança dança/ na corda-bamba de sombrinha/ e em cada passo
dessa linha/ pode se machucar”). Quer dizer: até a esperança, que é a última
que morre, está na corda-bamba. Mas a esperança, mesmo sabendo que pode se
machucar, sabe que ainda há um fio de esperança, pois a vida continua. Isto é o
que está dito no final da composição: “azar/ a esperança equilibrista/ sabe que
o show de todo artista/ tem que continuar”.
Publicado na REVISTA AJUFE DE CULTURA, ano I , nº 01 –
Fev/2006
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