— Eu, o capitão-do-mato
Vinícius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil na linha
direta de Xangô, intitulado, post-mortem, de o poeta da paixão, quero aproveitar,
porque agora apareceu um portador, para mandar um recadinho aos meus caros
amigos, especialmente aos parceirinhos Chico e Toquinho, entregando-lhes a missão
de divulgar esta mensagem além da vida. Aqui, direto dos estúdios do pai
celestial — num petit comité ao lado
do meu querido Tonzinho, de São Pixinguinha e do meu bom Maria, com eles
entornando uma cachacinha de rolha, porque aqui no céu não chega cachorro
engarrafado — quero externar algumas reflexões sobre minha passagem terrena,
principalmente neste Rio de amor que se perdeu. E de logo revelo duas coisinhas
que nunca me abandonaram o espírito, especialmente porque, juntas, sempre
representaram para mim algo uno e indivisível: a mulher e a paixão. Aliás, quero de logo deixar bem claro que nada
há de novo sobre o assunto, senão o meu desejo, agora celestial, de repisar o
que todos já sabem: que a vida é boa para ser vivida, como eu sempre quis
vivê-la, intensa e apaixonadamente, em cada vão momento, tanto que em seu
louvor tratei de espalhar meu canto. E agora, cá do céu, posso dizer, alto e
bom som, o que eu já dizia antes: — cuidado, companheiro, a vida é pra valer. E
não se engane, não, tem uma só, pois duas mesmo que é bom ninguém vai me dizer
que tem, porque, agora, sou testemunha ocular do fato, tornando-se dispensável aquela
prova que eu tanto em vida propugnava: certidão passada em cartório do céu,
assinada embaixo: Deus — e com firma reconhecida. Acreditem em mim!
— A propósito de
acreditar, lembro que, embora o general Costa e Silva não acreditasse, a ponto
de exigir então minha cabeça na “diplomacia”, digo-lhes que minha vida foi uma
luta para que ninguém tivesse mais que lutar. Olha que eu já havia dito isto em
antigo poema dedicado a Pedro, meu filho, quando ele ainda era um menininho. Mas
acho que meus detratores só entenderam o que então escrevi muito depois de meu previsível
passamento.
— Luta à parte, durante
minha única vida terrena tive dois grandes amores: a mulher e a poesia. A poesia
foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem
sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei. E amei a ti,
mulher amada, cioso de que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. Tu,
mulher amada, és tão profundamente que irrelevas as coisas mesmo do pensamento.
E eu te amei e amei, ai de mim, muito mais do que devia amar. Era como se o
amor doesse em paz. Ah,
eu amei, amei demais. E eu chorei, perdi a paz. O que eu sofri por causa de
amor ninguém sofreu. Ainda assim, te peço perdão por te amar de repente. E se te
amei assim muito e amiúde, e assim o fiz até mais do que pude, foi porque
sempre cri na idéia de que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto
desencontro pela vida. E é por acreditar cegamente na magia desse encontro que confesso:
semeei o amor e a paixão ao lado de muitas mulheres e com cada uma delas eu
conheci o que é felicidade. Mesmo acreditando que as mulheres são muito
estranhas, muito estranhas, e que vivem perdidas num mundo lírico e confuso,
cheio de canções, aventura e magia, eu quis viver a vida sempre assim, com uma mulher
perto de mim, até o apagar da velha chama. E sempre em cada uma encontrei a razão
de viver e de amar em paz e não sofrer mais. Mas como o amor, o sorriso e a
flor se transformam depressa demais, pude perceber nos olhos de cada uma em
particular que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz.
— Caros amigos: sempre
que senti arrefecer a chama da paixão, tornei-me fiel apenas à minha poesia e fui
em busca de outros amores. Mas confesso: - nessa busca tive algumas recaídas. E
quando a saudade batia-me à porta, eu logo dizia: - a realidade é que sem ela
não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não
sai de mim, não sai! E logo eu pedia: - vai, minha tristeza, e diz a ela que
sem ela não pode ser; diz-lhe, numa prece, que ela regresse, porque eu não
posso mais sofrer... chega de saudade. E também mandava recadinhos: -
volta, querida, os
seus olhos tem que ser só dos meus olhos, os meus braços precisam dos
teus, teus abraços precisam dos meus, estou tão sozinho, não me deixes ficar
triste; tem dó, pois quem viveu junto não pode nunca viver só! E insistia: - tomara
que você volte depressa, que você não se despeça nunca mais do meu carinho, afinal tu
me chegaste sem me dizer que vinhas e foste em minha’alma como um amanhecer! E
implorava: - se guarda para mim, pois tua ausência é um sofrimento!
— O desfecho é de todos sabido:
apesar dos tantos apelos, nenhuma retornou aos meus braços, nem fez de seus
braços o meu ninho. Aliás, pelo menos uma delas foi-se embora de repente, não
mais que de repente, antes que eu, como de costume, saísse à francesa em busca
de uma nova paixão. (Do episódio de minha fujona amada, o Badinho é testemunha).
E o que é pior: como o perdão também cansa de perdoar, ela se foi sem sequer
dizer adeus, mesmo que eu lhe rogasse: - Ah, meu amor não vais embora, pois sem
você eu não sou ninguém, porque sei que vou te amar, por toda minha vida eu sei
que vou te amar, desesperadamente eu sei que vou te amar. Tudo debalde, restou-me
exclamar: - Ah, insensatez que você fez, fez chorar de dor o seu amor, um amor
tão delicado. Vendo tudo desfeito, tudo perdido, o amor dilacerado, o pranto
ante a agonia do fato consumado, ainda tentei uma ameaçazinha: - tudo bem,
agora vá sua vida como você quer, porém não se surpreenda se uma outra mulher
nascer de mim, como do deserto uma flor! Mas ela se foi. E eu fiquei pensando.
É, existe sempre uma mulher para se ficar pensando! À noite, em conversa com
amiguinhas confidentes, uma recomendou-me uma macumbazinha. Mas logo outra advertiu:
- coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor! Enquanto uma dizia: vai,
vai, vai, logo a outra insistia: - se é canto de Ossanha, não vá, pois muito
vai se arrepender Resoluto, decidi: - eu só vou se for pra ver uma estrela
aparecer na manhã de um novo amor!
— Durante minha vida
terrena, por céus e mares eu andei na esperança de saber o que é o amor.
Ninguém sabia me dizer, quando um velhinho com uma flor assim falou: - o amor é
o carinho, é o espinho que não se vê em cada flor. De passagem pelo candomblé
baiano, sob os auspícios de meu orixá, ali me foi ensinado que o amor só é bom
se doer, pois ninguém tem nada de bom sem sofrer. Olha, fale quem quiser falar,
meu bem, mas a gente nasce, a gente cresce, a gente quer amar, mesmo sabendo
que são demais os perigos dessa vida para quem tem paixão. Descansasse o Senhor
no 6º dia da criação, simplesmente não existiríamos e, portanto, não
sofreríamos males de amor. Mas como Deus criou o mundo e fez o homem (quase) à
sua semelhança e se, por outro lado, paixão é sofrimento, tinha eu razão quando
dizia: - mesmo que tenha que sofrer, eu abro o jogo e o coração e deixo o meu
barco correr. E dizia mais: - pelo amor de uma mulher, eu viro a cara pro
perigo e seja lá o que Deus quiser. Mas pergunto agora: - pra que chorar, pra
que sofrer, se é sempre um novo amor cada novo amanhecer? Em verdade vos digo:
- é preciso amar sem mentir; é preciso manter a esperança divina de amar em
paz; é preciso inventar de novo o amor.
— Amigos meus, está
chegando a hora. Como vocês já sabem, eu morri. Logo eu, que vivia perguntando:
quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores? Pois estou morto.
Literalmente. Morri, sim, de amores. Ah, como é lindo se morrer de amor! Morto,
ainda choro de saudades de minha pátria. Morto, espero estar bem vivinho em
vossas mentes e corações. Bom... mas eu vou partir, eu vou ter que dizer adeus.
Mais uma vez. Lembram que eu, ainda na vida terrena, pedi a benção, ao cabo de
uma canção, aos meus amigos então já aqui no céu, grandes sambistas desse meu
Brasil branco, preto e mulato? Pois agora, aqui do além, sou eu que lhes mando
minha benção, a todos que ainda aí padecem. E não esqueçam: para viver um
grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se
possível, um só defunto, pois o amor é sempre um sentimento que a separação não
deixa em paz. Também
não esqueçam: mesmo sabendo que a paixão traz sempre muita dor, a mulher foi
feita pro amor e pro perdão (caiam nessa, não!); e ai de quem não rasga o
coração: esse não vai ter perdão. Para finalizar, vou repetir: - ninguém vive
mais do que uma vez. Portanto, acreditem em mim e se cuidem, pois o gim é um
veneno. Cuidado, parceirinhos, não bebam demais. E procurem o colo de uma
mulher, uma companheira, uma brasileira, para se amar, porque a coisa mais
divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais. E sou eu, o poeta,
quem diz: - ser feliz é viver morto de paixão.
NOTA EXPLICATIVA: A alusão à psicografia é verdadeira licença poética. Este
texto é resultado, sim, de pura intelecção, encerrando, em verdade, uma
construção, tijolo com tijolo num desenho lógico, da poética de Vinícius de
Moraes, a partir das seguintes composições e poemas do poetinha: SAMBA DA
BENÇÃO; CAROS AMIGOS; TARDE DE ITAPOÃ; CARTA AO TOM 74; SONETO DE FIDELIDADE;
DEIXA; MAIS UM ADEUS; PEDRO, MEU FILHO; DIA DA CRIAÇÃO; CONJUGAÇÃO DA AUSENTE;
AMOR EM PAZ; É PRECISO DIZER ADEUS; BERIMBAU; TERNURA; SONETO DO AMOR TOTAL;
TESTAMENTO; CORCOVADO; MEDITAÇÃO; CHEGA DE SAUDADE; MINHA NAMORADA; SAMBA EM
PRELÚDIO; TEM DÓ; TOMARA; SONETO DE SEPARAÇÃO; O QUE TINHA DE SER; REGRA TRÊS;
APÊLO; EU SEI QUE VOU TE AMAR; INSENSATEZ; A ROSA DESFOLHADA; E SE ESUEÇA DE
MIM; A CARTA QUE NÃO FOI MANDADA; CANTO DE OSSANHA; O VELHO E A FLOR; DEIXA;
FORMOSA; SONETO DO CORIFEU; O DIA DA CRIAÇÃO; TURBILHÃO; PRA QUE CHORAR; SE
TODOS FOSSEM IGUAIS A VOCÊ; SE ELA QUISESSE; AMIGOS MEUS; A HORA ÍNTIMA; PÁTRIA
MINHA; PARA VIVER UM GRANDE AMOR; AS RAZÕES DO CORAÇÃO; COMO DIZIA O POETA; NO
COLO DA SERRA; TOMARA; AS CORES DE ABRIL.
RESPOSTA DE UM E-MAIL A UMA
SOBRINHA QUE RECEBEU O TEXTO:
Elaine:
A estória da
"psicografia" é uma "licença poética". Na verdade, eu fiz
uma crônica tomando por empréstimo parte do que o poetinha escreveu. Fiz uma
construção: tijolo com tijolo num desenho lógico. Pincei versos do poetinha de
várias músicas e poesias ... e fui montando. O difícil é dar coerência a um
texto montado com palavras que você nunca escreveu. Quer dizer: eu nada escrevi
(só algumas palavras, suficientes para fazer as interligações). Noventa por
cento é do poetinha, extraída do que ele esparsamente escreveu (veja
relação abaixo da crônica). Palavras minhas mesmo talvez cerca de
10%. Apenas o necessário para unir cada verso que ele escreveu. É claro que,
tal como está, ele nunca escreveu. O texto é completamente novo. As palavras
ele as escreveu em outro tempo e realidade e em outras circunstâncias.
É por ai. Mas acho
que, como ficou, o poetinha também gostaria. Aliás, preciso escrever algo
parecido do Chico Buarque. E quero que ele leia e se surpreenda com um texto
que ele não escreveu, embora haja cunhado cada palavra.
Beijão,
Tio Beto
Muito muito top esse texto
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